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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Remontagem (IV)

DESVENDANDO A SIMBOLOGIA
OCULTA DE LISBOA- IV


JARDIM ZOOLÓGICO DE LISBOA

A IMITAÇÃO DO PARAÍSO BÍBLICO

(REPORTAGEM DE FERNANDO DACOSTA IN MAGAZINE DO "PÚBLICO", N. 157 7/3/1993)

Os que, há mais de um século, decidiram construir um jardim zoológico em Lisboa, não quiseram construir apenas um jardim zoológico, isto é, uma reserva de animais exóticos ou bravios; ambicionaram mais, edificar um espaço que sintetizasse o Paraíso da Bíblia e o Éden pagão. Erguido na Quinta das Laranjeiras em 1905, depois de ter estado em Palhavã, tornou-se desde então um dos mais belos e estranhos zoos de que há referência.

Pessoas excepcionais na época, os seus promotores - caso do rei D. Fernando II, do escritor Camilo Castelo Branco, dos médicos Van der Laan e Sousa Martins (alvo, hoje, de invulgar culto religioso), do barão Hessler, de Carvalho Monteiro e dos condes Farrobo e Burnay - atribuíram-lhe um significado simbólico marcante.

A sua matriz teria, assim, sido inspirada no Jardim das Delícias, nos Paraísos bíblico, hindu e caldeu, onde os quatro reinos da Natureza, mineral, vegetal, animal e humano, se religam, se harmonizam.

O mineral está representado pelas águas e granitos da zona, o vegetal pela variedade da flora, o animal pelas espécies zoológicas conseguidas, e o humano pelos visitantes, sobretudo crianças, que o procuram em número crescente.

Segundo alguns estudiosos, como o dr. Vitor Manuel Adrião, que o investigou durante anos e sobre ele preparou o livro "Regaleira de Sintra", em lançamento, a singularidade que apresenta deve-se ao facto de "todos os que estiveram na sua génese terem sido iniciados e membros de Ordens Secretas, Maçonaria (conde de Farrobo), Rosa Cruz (D. Fernando II), Ala do Templo (António Carvalho Monteiro)".

Para eles, um jardim zoológico devia ser um lugar de reencontro com o mistério, com a espiritualidade. Os arquitectos chamados imprimir-lhe-ão esses signos e sinais, a que o Romantismo, emergente na altura, dará, em termos públicos, bom acolhimento.

Investigações recentes permitiram apreender os significados contidos nas estátuas, nas colunas, nas pontes, nas fontes, dispostas de acordo com as fases das viagens do Conhecimento.

A chave para a sua decifração encontra-se no Roseiral, espaço delimitado por sebes e pavilhões, onde se entra por uma lindíssima e minúscula ponte de pedra, símbolo da passagem para o Superior, para o Perfeito. Obra de extremo bom gosto, semelhante aos tabuleiros suspensos do Nilo, está delimitada por quatro colunas, ostentando cada uma um artífice egípcio, guardião das quatro direcções envolventes.

O Roseiral parece o jardim de um templo aberto, com as suas fontes, recantos, labirintos, vértices, esferas, grinaldas graníticas, com as suas esfinges andróginas (rostos de homem e seios de mulher), os seus dragões assírios, os seus gansos, os seus delfins, as suas figuras mitológicas. Lugar da rosa, constitui a síntese final de todo o zoo.

Este encontrava-se sobranceiro a uma zona de sete rios que desembocavam no rio de São Domingos, do qual saíam quatro riachos que percorriam o vale das Laranjeiras. "Tal como o Paraíso terrestre, que era banhado por um rio dividido (palavras de Manuel Adrião) em quatro braços: Pison, Gion, Tigre e Eufrates."

Quatro séculos atrás, D. João de Castro surpreendia o país e a Europa ao falar no projecto de um jardim zoológico onde se concentrassem as espantosas diversidades de animais e plantas que os portugueses, nas suas viagens, haviam descoberto pelo mundo. O clima ameno e o património de conhecimentos que detínhamos sobre as raças dos bichos e as maneiras de com eles lidar, tornava-o à partida viável.
A herdade da Penha Verde, que possuía em Sintra, podia, afirmava, ser um bom local para o projecto. O antigo vice-rei das Índias não foi, porém, levado muito a sério. Mas o fascínio pela fauna das paragens longínquas tomar-nos-ia, desde então, para sempre.

Os grandes do reino passaram a ter exemplares dela nas suas quintas, seres de maravilha e espanto, a impressionarem fortemente os estrangeiros que as visitavam. Plantas e animais raros venciam oceanos e reproduziam-se em jardins aristocráticos, climatizados para o efeito. Metrópole de impérios africanos, sul-americanos, asiáticos, Portugal fazia-se referência decisiva.

Dominando a cultura, as artes, a ciência, a economia, notáveis ligados ao rei D. Fernando II marcam a vida criativa de então. Lugares especiais são-lhes objecto (Sintra com o Palácio da Pena e Sete Rios com a Quinta das Laranjeiras) de realizações surpreendentes.

Pela sua localização, pelo seu microclima, pelas suas águas ("águas boas" as designaram no tempo das pestes), pela sua arquitectura, pelos seus edifícios, pelos seus bosques, a herdade de Sete Rios apresentava-se desde logo como o espaço ideal para um jardim zoológico.

Comprada aos franciscanos pelo conde de Farrobo, que lhe construiu um palácio e um teatro, o Tália, tornou-se um centro cultural de invulgar prestígio. Com capacidade para 560 especta- dores, o teatro (actualmente entregue ao Ministério da Juventude) foi o primeiro edifício a ser, entre nós, iluminado a gás, Nele representaram-se óperas, peças e bailados famosos, com a presença frequente da corte.

Dificuldades surgidas levaram, no entanto, a que o primeiro zoo fosse instalado em Palhavã, nos terrenos onde se encontra hoje a Fundação Gulbenkian. Aí esteve desde 1883 até 1904, altura em que o Governo alugou o Parque das Laranjeiras (em 1940 expropriou-o) e para lá o transferiu, dando-lhe a envolvência ambicionada.

As obras de adaptação, como as realizadas nos finais dos anos 20 por Raul Lino, não lhe feriram o equilíbrio nem lhe desvirtuaram a estrutura. A sua excepcionalidade tem sido, com efeito, preservada sobre as carências, os revezes sofridos. O maior dá-se quando, a seguir ao 25 de Abril, se instala a ideia de que ele é uma obra da burguesia, parasitária e contra-revolucionária. Chega a ser proposta a sua destruição e o abate dos animais e das árvores.

"Hoje atravessa uma fase de expansão. Os bichos estão felizes", especifica Manuel Adrião. "Os tratadores são excepcionalmente dedicados. Júlio Isidro deu-lhe, através da televisão, um apoio decisivo. Empresas privadas ajudam-no, o número de visitantes aumenta. É fundamental que todos tenhamos consciência do seu valor."

Do lado de lá dos muros fica o caos de uma Lisboa desespiritualizada, dessacralizada, com ruídos, trânsitos, edifícios (um deles, o da antiga escola da PIDE), poluições, a cercá-lo.

A cortina do tempo que separa os dois mundos faz-se frágil, frágil como o olhar dos bichos cativos, a transparência das águas, a reverberação das plantas, os risos das crianças, como o sonho dos que criaram esta obra singularíssima da nossa utopia, do nosso engenho, do nosso domínio dos outros - os animais, no caso presente.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Remontagem (III)



DESVENDANDO A SIMBOLOGIA OCULTA
DE LISBOA III



Fonte do Jardim Botânico de Lisboa

LISBOA DO QUINTO IMPÉRIO

(REPORTAGEM DE MANUELA GONZAGA IN REVISTA 3 DE "O INDEPENDENTE", 8 a 14.10.1999)

Quando a terra tremeu, o mar e o fogo correram sobre as ruas antigas, a devorar casas e palácios, igrejas e albergues, lojas, teatros, fortalezas, campanários e pórticos, até o chão ficar ensopado de cinzas e lama, e corpos aos milhares, para que uma cidade nova crescesse sobre estes escombros, clara e apolínea, racional e ampla.

Mas a Lisboa pombalina, pós-terramoto, traçada a régua, esquadro e compasso, é, também, herdeira de António Vieira, de Bandarra e de Camões, assumindo-se capital do Quinto Império que Pessoa escavava, depois, nos arcanos da Astrologia e da Gnose. O Marquês impôs as regras. Mas os códigos são muito mais antigos, e esse património abrange todo outro Saber.

Página a página, na pedra das estátuas, no traçado e na orientação do eixo que define ruas e avenidas, ainda hoje é possível encontrar, na repetição do símbolo, na linguagem cifrada de números e formas, a ossatura do sistema, a ordem latente onde assenta o Mito.

Viajámos pela Lisboa do Quinto Império na companhia de um historiador que escreve sobre estes temas. É um homem pálido, de fato e gravata, cabelo comprido e olhos encovadíssimos, autor e apaixonado do mistério que circunda a "cidade mais bonita do mundo". E é ele, Vitor Manuel Adrião, quem estabelece o percurso:

"Vamos ao Rossio e aos Restauradores, aí faremos a leitura ícone-simbólica, no que me for possível, de algumas estátuas e do obelisco. Vamos ao extinto restaurante "Abadia", nas caves do Palácio Foz. Vamos espreitar as entradas para os subterrâneos de Lisboa, segredo de Estado nas mãos do Exército. E às Ruas do Ouro, da Prata e Augusta. Ao Terreiro do Paço, concebido de acordo com a numerologia das lâminas do Tarot. Vamos ler e tentar decifrar um pouco da iconologia patente no pórtico da igreja da Conceição-a-Velha e visitar a de S. Roque, no Bairro Alto. Vamos tentar ver a lápide do alquimista, num túmulo no Convento do Carmo."

Estava um calor magnífico. Passámos por entre turistas e remámos contra a maré de gente apressada. E parámos junto à Gare Central do Rossio, neogótica, de sabor manuelino. Entre as duas portas, em forma de ferradura, ali está ele, o Desejado, em estátua de pedra de dimensões naturais, com a mão segurando a espada, com a sinistra pousada no terceiro castelo do escudo e a ponta da lâmina apontando o quinto:

"Indica a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade que há-de governar o Quinto "Castelo" ou Império, o dos Lusitanos. Este monarca controverso e delirante, no final de contas, é apenas a representação do Filho, a figura ou expressão régia do Encoberto, daquele que há-de vir, um símbolo de Humanidade Perfeita de uma Nova Era. Quando o Padre António Vieira evocava o Rei-Encoberto, o Rei-Desejado, não se referia tanto a D. Sebastião concretamente mas ao Arquétipo deste Reino. Ainda relacionado a este escultório, correm à "boca pequena" as vozes de certas tradições pretendendo que a espada aponta para um ponto específico, a alguns quilómetros abaixo do chão, onde existirá uma estrada subterrânea que liga a Sintra."

Vitor Adrião discorre sobre símbolos e temas, apontando pormenores: as vides, que remetem para Dioniso, o deus do vinho, da exaltação, forma apaixonada do conhecimento, que tem a sua representação em Shiva no panteão oriental. Deuses da Sabedoria Oculta. Omnipresente, o cordão de marear, ex-líbris do Manuelino, consagração deste povo de navegadores que tinham por timoneiro o Infante Henrique de Sagres, Grão-Mestre da Ordem do Templo, dita de Cristo, cujas cruzes estavam inscritas nas velas das naus que buscaram e deram novos mundos ao mundo. É a outra História, a das lendas e mitos, depurada do sangue e da cobiça, do aqui-e-agora, mas não menos real por menos evidente.

Estátuas e obeliscos, cavalos. Baixos-relevos que contam histórias. Praças de dimensões justas. Ruas que formam um traçado geométrico. No dia glorioso, o sol ainda queima. À direita, ao alto, as ruínas magníficas do Carmo. Em frente, a Rua Augusta, que desemboca no Cais das Colunas. Nuvens cerradas de pombos pousam ou levantam voo das praças.
"A estátua de D. Pedro no Rossio equivale ao `mundus´, o ponto axial, centro para onde convergem todas as direcções da cidade e - porque não? - do País, já que Lisboa dele é capital. Aqui temos o monarca imperial de Portugal e do Brasil, apadrinhado pelos Guardiões das quatro direcções do Mundo, assinaladas nos quatro naipes do Tarot: paus, espadas, ouros e copas. No Cristianismo, são conhecidos como Rafael, Mikael, Ariel e Gabriel", explica Vitor Adrião.

E rodeando a estátua, vai indicando, naipe a naipe, Guardião por Guardião. Taças, ou copas, apontando para a Rua de Santo Antão, o "Anacoreta do Deserto", "a qual inclina 17 graus para a direita".

Ouros aponta para a Gare Central do Rossio, "o Caminho Alquímico, o Ouro Vivo, a Pedra Filosofal, onde está a estátua do Encoberto, aquele que cavalga o cavalo branco, o Avatara, o Cristo de Aquarius, o Senhor do Quinto Império".

Paus, ou báculo, aponta em direcção ao "Carmo, o lugar donde se propagou oficialmente o culto matriarcal à Mãe Divina, o convento onde morreu e repousou o féretro de Frei Nuno de Santa Maria, antes o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, que às armas juntou a devoção e assim se tornou Santo (os seus restos mortais repousam hoje na igreja a si consagrada, em Campo de Ourique). Convento, ainda, que a tradição mais velada afirma habitada ao tempo por adeptos herméticos senhores das mutações alquímicas, e aí ainda se pode ver, num dos lados do túmulo de D. Fernando, a ilustração escultória dum alquimista operando no seu laboratório debaixo da terra, sob o convento, a que se desce por uma escadaria longa."

Finalmente, espadas. "A Espada da Lei e da Virtude, a que premeia e salva, a que protege ou castiga, que aponta em direcção à Sé Patriarcal de Lisboa, a quinta Catedral Graalística do Ocidente, por onde depois do ano 985 da nossa Era a Taça do Santo Graal passou e ficou até finais do século XV", diz ele.

E insiste: "Para onde olha D. Pedro, o Imperador do Brasil? Em direcção ao Cais das Colunas, onde, diz a Tradição, cantada, glosada e prosada por Fernando Pessoa, para não falar de Sampaio Bruno, António Sérgio e outros, haverá de desembarcar, alegoricamente falando, o Enco- berto. O Salvador das Nações. Para essa concretização todos terão de dar o seu contributo mental e moral da melhor maneira que souberem fazer, em prol da edificação de uma Sociedade Humana mais justa e perfeita. Nisto bem se enquadra a Profecia de Sintra: `Quem nasce em Portugal é por missão ou castigo´. Seja por missão."

CONVENTO DO CARMO


Portugal, país sob o biorritmo do valor 17, o Arcano da "Estrela dos Magos", astrologicamente regido por Peixes e Júpiter (enquanto Lisboa a é por Balança e Vénus), que por sua vez tem na água o seu símbolo supremo. É essa que encontramos no cruzamento da Rua de S. Nicolau com a Rua Augusta, na esquina configurando o Nascimento, assinalado em Nicolau (o bem conhecido Pai Natal), para a Luz Augusta, indicadora do Androginismo Perfeito ou da Perfeição Humana.
Na quadrícula da Baixa, sete ruas longitudinais cruzam-se com sete ruas transversais, intersectadas por três praças: assim se encontra, de novo, 17, o número da "Estrela dos Magos". E os nomes das ruas remetem para a terminologia alquímica - Rua do Ouro, Rua da Prata - que tem o seu desfecho na arquitectura da Praça dos Arcos.

Sob o Arco do Triunfo por onde se desemboca no Terreiro do Paço, a Cruz de Santo André, com a Rosácea ao centro. Uma porta gradeada, sob um dos arcos, dá para a entrada dos subterrâneos. E aqui estamos, turistas na nossa própria cidade, deambulando neste espaço magnífico... Alguém toca flauta. Alguém ri. Muita gente fala, a toada que persiste é uma mistura de línguas.

"A Praça da grande Obra, Malkuth, o `Reino´, sintetiza toda a tradição mítico-sagrada de Lisboa. Os arcos frontais: os 22 Arcanos Maiores, e os restantes são os 56 Arcanos Menores. É o `Livro de Thot´, o Tarot egípcio. A passagem pelos claustros da arcaria chama-se `Os Passos Per- didos´. Perdidos para o profano, achados para o Iniciado que chega ao fim adquirindo o Conhecimento", explica o nosso guia.

No centro do Terreiro do Paço, a estátua deste cavaleiro D. José I, obra de Machado de Castro, vestido à romana, com a capa curta da Ordem de Cristo, não será antes - ou também - São Jorge de Portugal, o vencedor de dragões, esmagador de serpentes, de Tarascas em que salva donzelas virgens e inocentes, aqui as `flores da maternidade´ de uma Nova Era? As deusas atlantes, fundadoras da cidade - primeiro Ofiússa, mais tarde Ulissibona e Lissabona. Símbolos, símbolos. O Leão. O quinto signo do Zodíaco, o sinal do Quinto Império. O esquadro e o compasso, insígnias da Grande Obra, assinatura maçónica. Os tesouros escondidos, para descobrir.

A mó ligada a São Vicente, Orago da cidade, que tem dois corvos no seu brasão. Aves proféticas, uma sabe do Passado, a outra sabe do Futuro. Lisboa velha, velha, ligada por subterrâneos que comunicam, o Castelo com a Sé, a Sé com o Convento do Carmo. Vias ocultas, atravessando toda esta quadrícula, cujas portas, discretas, entaipadas, divisamos. Ou as lajes, de argolas, como nas histórias dos tesouros.

Lisboa dos 12 bairros - o Universo por inteiro, com as 12 moradas do Zodíaco - e das sete colinas (em Astrologia os sete planetas que regem os signos), reconstruída por um húngaro, Carlos Mardel, o homem escolhido por Pombal, que chefiou toda a equipa de arquitectos que ergueu a cidade dos escombros do terramoto de 1755.

De modo que os pormenores das figuras da Praça do Comércio têm a ver com "a `Casa dos 24´e com a Maçonaria Operativa, essa a Maçonaria Primitiva ou Arte Real. O 22.º Arcano está ao centro, com Apolo e Minerva, coroados pelo Triunfo, este o de todas as imagens que preenchem o Arco: Ulisses, o Tejo e o Douro, Viriato, Nun´Álvares, Vasco da Gama e o Marquês de Pombal."
Ainda há o pórtico da igreja da Conceição-a-Velha. Ainda falta a Abadia. É preciso ir a São Roque. E há que não esquecer os corvos. E os subterrâneos, aonde já não é possível ir, sob esta praça assente sobre estacas, por onde a maré reflui. Os comerciantes da Praça da Figueira queixam-se muitas vezes da água salgada que lhes inunda as caves nas marés vivas.

Mas que Quinto Império é esse, afinal? É o Reino de Bandarra, de Pessoa, de Vieira. O do Terceiro Milénio. O Império do Espírito Santo, entrevisto por Joaquim de Flora, no limiar da heresia, acolhido por Diniz e Isabel, dita "a Rainha Santa", que instituiu as festas em que se coroa o Imperador-Menino, vai para oito séculos, revivido em Alenquer, em Tomar, em Sintra, nos Açores, no Brasil.

Porquê "Quinto", e para mais "Império"? Histórias tão antigas. O sonho de um rei, Nabucodonosor, interpretado por um profeta, Daniel, registado num livro do Antigo Testamento. Uma estátua. Cabeça de ouro, peito e braços de prata, ancas de bronze, as pernas metade de ferro, metade de barro, e logo destruídas por uma pedra que se transformou numa montanha. A cada um dos metais corresponde um Império. A pedra que os destrói é o último, o Quinto, a irromper no Extremo Ocidente, o Reinado que, na inversão dos metais, corresponde à Idade do Ouro, à vinda do Desejado, a Parúsia universal, para instituir o Reino do Pai e do Filho incarnados no Espírito Santo.

E é este sonho, não delirante mas mágico, que tem polarizado há séculos pensadores, poetas, nautas, filósofos, sapateiros profetas, num ideal que une seres tão díspares como um quase santo, António Vieira, e um déspota iluminado, Sebastião José de Carvalho e Melo.

Diante do portal de uma igreja esquecida, Vitor Adrião conta: "Era aqui a sinagoga de Lisboa, depois consagrada Conceição-a-Velha, a Virgem Negra do Restelo trazida em procissão so- lene, há séculos reinando D. Manuel I, da Ermida do Infante Henrique de Sagres. Os antigos sabiam que Lisboa está sob a égide Vénus, a Boa Mãe, a Senhora das Águas, a Lusina, a Venusina, a Varina."

E ali está ela, Vénus de espada e balança, com roupas de varina lisboeta, na coluna central de Santa Maria no pórtico frontal, e o único, deste templo quase abandonado, rodeada de símbolos alquímicos, grifos e águias, anjos e livros abertos e fechados, o menino, a lebre e o cão.

Esperam-nos na Abadia. Sob as caves do Palácio Foz jaz um tesouro maravilhoso. Limpo de entulho, recuperado passo a passo, eis o antigo restaurante maçónico, onde se repetem os símbo- los de todo este percurso, numa arquitectura interior dividida em três partes: o Claustro, o Refeitório e o Coro.

Ali estão 24 bustos, entre os quais uma senhora, ali estão esquadros, compassos, insígnias. As colunas. O Adepto, com o barrete frígio, carregando a Sabedoria Divina. Os elefantes, as andorinhas e as pombas saindo em cruzeiro dum pombal em esquina. "O Pombal do Cruzeiro Mágico de Portugal". Os cachos de uvas e a raposa que as olha cobiçosa sem lhes puder chegar, arrancando a desculpa mal resignada: "Estão verdes, não prestam." E a fonte de corais - fingidos, evidentemente - que liga pela escadaria do poço anexo aos subterrâneos de Lisboa. E a laje que dava para o túnel que desembocaria muitos metros acima, numa outra entrada num edifício junto à Trindade. Essa entrada está agora gradeada e entaipada, selada também com o leão de bronze. Mas aqui está a Dragona, iconográfica da Rainha dos Mundos Subterrâneos, grávida, "simbolizando o parto de uma Nova Era".

E salta à vista um outro pormenor. É tudo falso neste extinto restaurante, falso porque a madeira parece pedra, a pedra parece madeira, e as únicas coisas em material pétreo indiscutível são as colunas. Verde e vermelha:

"Significa matar a ilusão das aparências que quase sempre enganam. Significa desvelar Ísis, e tomar posse da outra e verdadeira leitura, a real. Trata-se do conhecimento iniciático que não vem nos livros nem em quaisquer outros meios públicos de informação, mas que se deixa perpetuar com muito fingimento, isto é, sabendo ocultar."

E entramos outra vez no domínio do oculto: Ordens Secretas. Vitor Adrião: "Há uma, a Ordem do Santo Graal, à qual todas devem Obediência."

Faz lembrar de novo as especulações à volta de Fernando Pessoa: seria ele templário? Maçom? E se sim, de qual das Obediências?

A viagem está quase no fim. Encerramo-la na igreja de São Roque. Onde toda uma outra história ainda fica por contar.

Remata Vitor Adrião: "Por detrás de minha pessoa e da Obra Teúrgica de que faço parte, existe a Ordem do Santo Graal."

A partir daqui o seu discurso introduz umas palavras que não são de uso corrente, estranhas e de sonoridade bizarra, mas quando lhe pedimos para as repetir ele diz: "Não vale a pena."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Remontagem (II)

DESVENDANDO A SIMBOLOGIA OCULTA DE LISBOA II



2 parte:
(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ, 17.6.1986)

AS HISTÓRIAS QUE OS MONUMENTOS NOS CONTAM

Os monumentos de Lisboa, conforme referimos no nosso trabalho anterior, contam histórias incríveis, algumas delas encobertas por narrativas populares que chegaram até nós mais na forma de mitos e lendas, capazes de serem "decifrados" por quem se debruçar, atentamente, sobre este tema, nem sempre tarefa fácil mas deveras aliciante.

Prosseguimos, para terminar hoje, um passeio pela capital na companhia de Vitor Adrião, um cabalista e teúrgico que a certa altura nos garantiu, sem pestanejar sequer: "Dizem certas tra- dições que a Taça do Santo Graal, a original, esteve na Sé de Lisboa, e em custódia, depois do ano 985 da nossa Era, sendo o seu culto mantido em segredo por uma misteriosa Ordem de Santos Sábios".

Muitas histórias, tanto ou mais curiosas do que esta são aqui abordadas, em diálogo a que muitos poderão chamar de insólito, outros de irreal e alguns de verdadeiro atropelo aos possíveis segredos de várias organizações iniciáticas.

Mas o único objectivo que nos moveu foi o de informar, fornecendo ao leitor as pistas entregues nas nossas mãos precisamente para isso.

E entremos, sem mais demoras, no assunto que está a prender a vossa atenção.


DA CONCEIÇÃO VELHA AO CASTELO DE S. JORGE

P. - Aqui, na Rua da Alfândega, existe a igreja da Conceição Velha, cujo pórtico é maravilhoso. Quais as figuras mais representativas do monumento?

R. - Junto do Terreiro do Paço temos a igreja de Conceição a Velha, o que nos remete à primitiva Concepção alquímica representada no Velho Testamento por Binah, tanto que antes de D. Manuel I este templo fora a sinagoga dos alfamitas ou residentes de Alfama. A sua fachada exterior, um misto de Gótico e Manuelino, respira e transpira o Feminino transcendente, o Marianismo, ou seja, expressa o aspecto matriarcal de Lisboa Oriental, representado pelo "Braço de Prata", e também as várias fases da Grande Obra Teúrgica/Alquímica, noutros termos, Ergon e Paraergon. Sendo a leitura desta fachada longa e exaustiva, apontarei somente uma personagem, a da coluna central, suporte de todo o eixo escultórico, vestida de varina mas portando a espada e a balança: é a antropomorfização da própria Lisboa. A Bela Luz de Vénus que influi na nossa cidade sob a égide do signo zodiacal da Balança, profundamente ligada às origens histórica e teúrgica do Homem e da Cidade.

Penso mesmo que os motivos ornamentais do Arco da Rua Augusta acaso ter-se-ão inspira- do nas figuras herméticas desta fachada e do seu complemento no extremo oposto da cidade, na rota da "Costa do Sol": a fachada de Santa Maria, no Ocidente do Mosteiro de Belém, a entrada principal que se ficou devendo ao cinzel do mestre-canteiro francês Nicolau de Chanterene, reinan- do D. Manuel I. Aliás, a imagem da Senhora da Estrela (donde, por corruptela, "Restelo") ou dos Reis Magos, uma Virgem Negra, da devoção extremada do Infante Henrique de Sagres, foi trasla- dada da capela do Restelo para Conceição a Velha, em procissão triunfal, pelos freires da Ordem de Cristo, ainda durante o reinado do supradito rei "Venturoso"...

P. - Daqui, de onde estamos, vê-se o castelo de S. Jorge. O que nos pode dizer sobre essa construção?

R. - Pegando na geografia sagrada da cidade e transpondo-a, por analogia, à anatomia humana, teremos o castelo de S. Jorge como o Mental regente de Lisboa. Durante largos séculos, aí estive- ram os paços reais. Foi aí que Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Cristovão Colombo, nome guemátrico em que se encobria o português Salvador Gonçalves Zarco, por exemplo, receberam a aprovação da Corte para a demanda de novos mundos para o Mundo Luso.

Sobre o castelo cintila o planeta Júpiter e sendo Júpiter, na Mitologia, o Pai dos Deuses, Deus ou Zeus, não é de admirar que a Península Ibérica esteja sob a égide do signo do Sagitário, este que expressa o Fogo Volátil purificador, o Pater Aether, que se torna Líquido ou purificado, na concepção alquímica, o que é personificado pelo Tejo deslizando manso e dolente às muralhas desta fortaleza.

E são exactamente os Peixes zodiacais do planetário deus Neptuno que regem Portugal, o Portugal da Divina Mãe, Marum, Mare, Maris, Mariz... o Portugal das sempieternas Águas renova- doras, purificadoras e purificadas, verdadeiro Fogo Líquido que se esparge lustralmente como Luz das Nações, dos Ciclos do Mundo, e que se centra em Lisboa, esta a pretendida Capital do V Impé- rio do Espírito Santo, aportando à memórias as profecias e lances vaticinadores do Padre António Vieira, de Gonçalo Anes o Bandarra, de Fernando Pessoa, de Guerra Junqueiro e mesmo de Camões quando cita em "Os Lusíadas", no canto sétimo: "Via estar todo o Céu determinado / De fazer de Lisboa nova Roma / Não o podendo estorvar que destinado / Está de outro Poder que tudo doma".


O SANTO GRAAL TERIA ESTADO NA SÉ DE LISBOA

P. - A Sé de Lisboa é alfobre de histórias incríveis. Edificada em três fases distintas, incluindo o páleo-cristão, o românico e o gótico, consideram-na um dos mais enigmáticos edifícios sacros da cidade. Tem a mesma opinião?

R. - A Sé Patriarcal de Lisboa, mandada edificar como templo cristão pelo rei D. Afonso I de Portu- gal, já teve no seu interior, e segundo certas tradições muito reservadas, a Taça do Santo Graal, a original. Ela esteve aí em custódia durante cerca de quatro séculos e o seu culto foi mantido em segredo por uma misteriosa Ordem de Santos Sábios, à qual as Ordens de Avis e do Templo deram cobertura exterior. Isto aconteceu depois do ano 985 da nossa Era.

Diz-se mesmo existir uma ligação subterrânea entre a Sé, o Castelo e o Convento do Carmo e que uma maldição fatal cairá sobre o profano e curioso que ousar afrontar esses misterio- sos trilhos. Mais não posso dizer.

Na Sé encontram-se, desde o século XII, as santas relíquias do mártir S. Vicente, um dos padroeiros de Lisboa. No brasão da cidade figura a Nau, Barca ou Arca que transportou os restos mortais do santo e que acabou por aportar à costa dos Algarves, mais precisamente ao Promontó- rio Sacro, a ponta de Sagres. Na barca, como elementos heráldicos, também figuram dois corvos, os quais e segundo a tradição, acompanharam, como fiéis e atentos guardiões, os despojos do mártir na sua estranha odisseia até esta Sé Metropolitana de Santa Maria Maior, depois convertida Patriarcal. O corvo, ave saturnina mas também solar, assimilando-se ao cisne negro e ao ganso negro, é o totem de Lisboa, o detentor da Sabedoria Divina e da Profecia "que perscruta o Passado e desvenda o Futuro".

P. - Chegados que somos ao Rossio, neste passeio pela arquitectura esotérica de Lisboa, depara- mos com a coluna dedicada a D. Pedro IV. Como interpretar as figuras esculpidas?

R. - No topo desta coluna monumental avistamos D. Pedro IV que segura, com a mão direita, a Carta Constitucional de 29 de Maio de 1826. Esta obra foi adjudicada ao escultor Elias Robert e ao arquitecto Gabriel Davioud, ambos de nacionalidade francesa. Assemelha-se o monumento a um falo desflorado, a um "linga" hindu ou "mundus" latino, e tem, no sopé, os Quatro Anjos do Destino de quanto vive e se desenvolve no Globo, esses "Fantasmas Cósmicos" de Forças Maiores, por isso mesmo "Jinetes Anímicos", estando demarcando estrategicamente, a partir do "mundus" central", o espaço da "Lisboa quadrada", correspondendo a cada ângulo um símbolo e naipe do Tarot, o que aliás cada um deles ostenta. Se uns lhes dão o nome de Mikael, Gabriel, Rafael e Auriel, então o quinto, representado pelo monarca no topo, futuro Imperador do Brasil, a "Nova Lusitânia" de Pedro de Mariz, acaso também será ele representação régia do 5.º Senhor em formação desse mesmo V Império do Mundo que se está formando.

Um pouco acima estão as Tágides, os "espíritos naturais" do Tejo, as quais formam um cordão protector ou cadeia de união. É realmente, um monumento muito belo portador de um arcaico e transcendente simbolismo que nos reporta, mesmo, às batalhas celestes entre Mikael Solus e Samael Petrus, as quais se terão reflectido, em nossa História, nas lutas sangrentas entre os absolutistas de D. Miguel I e os liberais de D. Pedro IV. Estes acabaram vencendo e se assenho- reando da Terra Lusa.


ESTAÇÃO DO ROSSIO

P. - A frontaria da gare da estação do Rossio, terminal ferroviário que liga Lisboa a Sintra, está arquitecturada em gótico neoclássico. Qual o seu valor simbólico?

R. - Como o seu nome indica o gótico (da raiz gálica God, "Deus") é um estilo que assinala a Asce- se, a contemplação do Divino. Esta é a mais pura, sensível e estética expressão da arte arquitectó- nica de fixar na pedra antes bruta a polidez da Harmonia Universal, o que expressa o Gótico puro, que é flamejante, estilo cuja apoteose vai dos finais do século XIII aos finais do século XV.

Na fachada da estação terminal do Rossio vêem-se duas arcadas cruzando-se à altura do nicho contendo a estátua de D. Sebastião, em tamanho natural, em atitude de defesa, a espada adiante do escudo inclinado 17 graus para a esquerda do possuidor. Seguindo um certo sentido, as arcadas sugerem as ferraduras do cavalo branco do Encoberto que não é o jovem sonhador de de- lírios funestos el-rei D. Sebastião, mas antes este o emblemático régio de um outro Rei muito mai- or que há-de vir, quiçá o próprio retorno do Cristo em Aquarius? Sebastião em hebraico é Sbhs ou "Serpente", é o Grande Dragão da Sabedoria, e não foi por acaso que foi o santo mais querido dos Templários, assim como Santo André o Arquitecto, um outro dos padroeiros de Lisboa.

Repito: o jovem rei do mesmo nome apenas simbolizou algo muito mais elevado. Que se acabe de vez com a confusão que a temática sebastianista, não raro levada ao rubro de certas po- líticas reaccionárias, tem provocado. Já o Miguel de Nostradamus, profeta visionário e hermetista, leva-me a lembrar a sua centúria 32 aquando fito a estátua do Encoberto, dentro do nicho: "O grande império em breve terá mudado / Em primeiro Lugar, que cedo crescerá / Lugar bem ínfimo dum exíguo Condado / Em cujo meio seu ceptro pousará". Ou mesmo a estrofe 70 das trovas de Gonçalo Anes, o Bandarra: "Portugal tem bandeira / Com cinco quinas no meio / E segundo vejo e creio / Esta é a cabeceira / E fora sua cimeira / Que em Calvário lhe foi dada / E será Rei da mana- da / Que vem de longa carreira".


OS RESTAURADORES COM PROMETEU LIBERTO

P. - Outro monumento, por sinal bem perto deste, que possui figuras escultóricas sobre o significa- do das quais poucos se debruçam apesar de passarem, muitas vezes, por perto é o Obelisco dos Restauradores. Poderá desvendar o significado destas figuras?

R. - O Obelisco dos Restauradores, situado na praça do mesmo nome, por sinal com 33 metros de altura, é decorado com dois anjos ongénios, sendo o masculino da autoria de Alberto Nunes e o fe- minino realizado por Simões de Almeida, enquanto o obelisco se deve a António Tomás da Fonseca e foi erigido em 1886 por subscrição nacional, promovida pela comissão central do 1.º de Dezembro.

O anjo masculino representa Prometeu Liberto, por seu Irmão Epimeteu ou Mercúrio; é Luzbel com os grilhões partidos, assim se assumindo na condição espiritual de Arabel e erguendo alto a Lança da Vitória, da Vitória da Libertação do Cáucaso ou "cárcere carnal", representada ob- jectivamente na restauração da Independência Nacional do jugo Filipino, e tudo junto a Vitória dos Deuses que restauraram os valores ancestrais de Lisboa e do Mundo. O escudo triangular a seus pés ostenta o trigo e a vide, logo, em referência em referência à Santa Eucaristia do Rito de Melki- -Tsedek, este se assume, em linguagem teosófica ou iniciática, como o actual "Planetário da Ronda", o Quinto dos Sete "Melki-Tsedek", que é sobretudo uma função hierárquica directora su- prema dos destinos da Terra e de quanto nela vive e evolui.

O anjo feminino representa a contraparte do Senhor da Luz Restauradora, a Rainha do Mundo, Io, Ísis ou Algol, com outros nomes ainda, podendo-se corporificá-la também como a "Lusitânia Triunfante", a Entidade que coroa e abençoa Lisboa, Portugal e o Mundo com a Palma da Vitória. Na destra ela segura o laurel da mesma Vitória Nacional e Espiritual, a décima 13.ª grinalda expressiva de "A Grande Mãe", estando as restantes predispostas em grupos de três nos pontos cardeais do monumento.

As Armas nos lados deste assinalam as forças temporais da guerra e da morte derrotadas pelos poderes intemporais da razão e do espírito, estabilizados no pólo de atracção energética que é o Obelisco.

P. - mas Lisboa possui mais monumentos cuja descoberta do seu simbolismo esotérico muito daria que falar...

R. - Muito fica por dizer, de facto. Poder-se-ia falar, por exemplo, de quanto há de esotérico no antigo restaurante "Abadia" nas caves do Palácio Foz, nos Restauradores; da estátua portentosa do Marquês de Pombal, na rotunda que lhe leva o nome, cujo gradeamento em volta da mesma replete-se de alegorias maçónicas todas assentes sob o ceptro e o báculo, símbolos do Poder Temporal e da Autoridade Espiritual, e todo o monumento assente sobre a Barca de Portugal; do Convento do Carmo ou dos Carmelitas, descendentes daqueles cristãos primitivos, integrados aos Essénios, do Monte Carmelo, para as bandas da Palestina; da Basílica da Estrela, "símile" do Ter- ceiro Logos, o Homem Cósmico Adam-Kadmon que na Terra é Adam-Heve; do Mosteiro dos Jeróni- mos e da Capela do Restelo, assim como da Custódia de Belém e da Virgem Negra Orago desses dois últimos templos. E mais, muito mais ficando por dizer e assinalar, a memória falha ante a far- tura da Lisboa Artística e Monumental, nisto, repito, já hoje Capital da Europa.



Reportagem (I)

O GRANDE MISTÉRIO DO TERREIRO DO PAÇO *
(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ", 16.6.1986)

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Remontagem (II)

DESVENDANDO A SIMBOLOGIA OCULTA DE LISBOA
(CONCLUSÃO)
AS HISTÓRIAS QUE OS MONUMENTOS NOS CONTAM
(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ, 17.6.1986)
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Próximas Reportagens:

Jardim zoológico de lisboa
A IMITAÇÃO DO PARAÍSO BÍBLICO
(REPORTAGEM DE FERNANDO DACOSTA IN MAGAZINE DO "PÚBLICO", N. 157 7/3/1993)
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LISBOA DO QUINTO IMPÉRIO
(REPORTAGEM DE MANUELA GONZAGA IN REVISTA 3 DE "O INDEPENDENTE", 8 a 14.10.1999)

domingo, 31 de outubro de 2010

REPORTAGEM I



DESVENDANDO A SIMBOLOGIA OCULTA DE LISBOA






O GRANDE MISTÉRIO DO TERREIRO DO PAÇO


(REPORTAGEM DE VICTOR MENDANHA IN "CORREIO DA MANHÃ", 16.6.1986)Entrevista o Historiador Dr. Vitor Adrião

A Praça do Comércio ou Terreiro do Paço foi construído segundo o sagrado Livro de Thot, mais conhecido pelo nome de Tarot, enquanto a Rua Augusta, ladeada pelas Ruas do Ouro e da Prata, com o arco monumental, constituem um conjunto arquitectónico mas iniciático capaz de nos abrir os olhos para o verdadeiro significado da cidade de Lisboa.

Estas e muitas mais afirmações de índole ocultista, sem dúvida a primeira vez trazidas a público nestes trabalhos de reportagem, foram-nos feitas pelo Dr. Vitor Adrião, durante alguns dias em que deam- bulámos por ruas e praças da capital do País, aprendendo pelo nosso lado um pouco do muito que arquitectos e escultores colocaram nas suas obras, para além da simples forma modelada das matérias empregues.

E isto porque, para Vitor Adrião, "Lisboa é a cidade da velha Mãe Lusina, companheira do deus Lug, a grande deusa dos Lígures e dos Celtas, a Boa Lusi ou Lusina, a Lusibona ou Lisibona".

Como o que foi dito é, afinal, muito na forma e importante no conteúdo, aqui ficam, apenas, os diálogos havidos durante este nosso passeio pela cidade dos "Homens-Serpentes" e das sete colinas, num esboço de roteiro capaz de interessar, quem sabe, a alguns dos nossos leitores.

LISBOA DAS SETE COLINAS É UMA CIDADE SAGRADA

P. - Existe alguma relação entre a cidade de Lisboa e o antigo culto ao deus Lug?

R. - Lisboa está internamente ligada ao ancestral culto do deus Lug, divindade suprema do pante- ão Lígure que, além de resistir à invasão dos Celtas, assimilou os ocupantes recém-chegados, le- gando-lhes os seus lugares (lug+ara, altar de Lug) de culto, as suas montanhas, rios e pedras sa- gradas. Lug, deus tão antigo e poderosamente enraizado que ainda hoje lhe surpreendemos o alento e os vestígios na toponímia das Gálias e em todo o espaço da Península Ibérica onde os Ára- bes não impuseram a sua presença e cultura.

P. - Entre esses vestígios quais são os mais os mais antigos ou possíveis de divulgar?

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- Devo declarar que boa parte das informações constantes nesta 1.ª reportagem (aqui revista, corrigida e aumentada, assim como a 2.ª, para não haver quaisquer imprecisões de ordem simbólica e historiográfica, pois que na altura as reportagens foram efectuadas no terreno e tendo eu como único recurso a memória imediata) tiveram como autor consultado Olímpio N. Gonçalves (in "Lisboa à luz dos seus Arcanos"), e na altura da entrevista, por precipitação ou descuido, seja como for ignorando e assim podendo o lapso pessoal assumir-se relapso ao entendimento do leitorado colectivo, não o citando, por culpa exclusiva do entrevistado, nunca do entrevistador, pelo que rectifico, como já o fiz em outras partes, devolvendo "o seu a seu dono". Seja como for, esta foi a primeira entrevista de vanguarda sobre o Esoterismo de Lisboa que alguma vez apareceu a público e, os pósteros, que conheço, limitaram-se a copiar-me e, aí sim porque sei de fonte directa, a ostracizarem declaradamente o autor, a minha pessoa e pena, em que dei muito de inédito... mas não completo, por a LEI do Sigilo Iniciático proibir, para que a Sabedoria Divina não viesse a ser conspurcada por esses e outros que tais, a maioria na ocasião não passando de "meninos de escola" e "curiosos de coisas fantásticas". A verdade é que, mesmo assim, conspurcaram o pouco que ofereci, demonstração cabal de que cresceram fisicamente mas ainda não amadureceram consciencialmente. - Nota Vitor Manuel Adrião.
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R. - São as marcas indeléveis da presença de Lug, os lugares "Lug", como os de Logroño e Lugo, no caminho de Santiago de Compostela e nos trilhos iniciáticos da História Secreta da Península Ibez a Ibéria. Raízes ancestrais impregnando de mistério a cidade da boa deusa Lusi e do grande Lug, obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e alquimista, músico, guerreiro e mago, o pode- roso tutelar da Lusitânia que os Lígures e os Celtas transportaram consigo na sua marcha para o Sul, em direcção ao Grande Ocidente, pela rota da Via Láctea e da Estrela do Cão, isto é, de Ísis e de Osíris ou estrela Sirius, nos confins da Terra, "as finis-terrae".

P. - Existe algum significado simbólico no facto de Lisboa ser uma cidade com sete colinas?

R. - Lisboa, como todas as cidades de sete colinas a exemplo das quais apontarei Jerusalém e Roma, dentre outras, é considerada pela Tradição Teúrgica uma urbe sagrada.

Decifrando-se o seu próprio nome de Lisboa (Lis+Boa), teremos a sacralidade do lugar des- velada. A Flor de Liz, símbolo de Iniciação e Mistério, representa o Sol Tríplice ou Santíssima Trin- dade expressa na figura Pontifícia e Imperial de Melki-Tsedek, o Prestes João, o "Vicente, corvo- -humano" nos Painéis de Nuno Gonçalves. O termo "Boa" além de designar a "água" designa também a coluna salomónica Boz ou Bohaz, pilar de Deus sito aos pés do Tejo, no Cais, portanto lugar representativo da cidade. Indicando a Beleza Universal, nela está a Força e o Rigor com que termina o nome de Lisboa, e nessa coluna a Lisboa cidade aos pés do Tejo finda.

P. - Há quem afirme que Lisboa foi fundada por Ulisses e sua contraparte Ulissipa...

R. - Ulisses e a sua contraparte Ulissipa são formas helénicas e antropomórficas do "celtizados" Lug e Lusina, designando astrolaticamente o Sol e a Lua. Na realidade, quer uns quer outros, enco- brem realidades mais profundas remontando à própria Atlântida quando Lisboa foi fundado pelo Príncipe Lissipo e a Princesa Lissipa, filhos da Rainha Ulisi-Pa ou Ibez (donde derivaria o onomásti- co hebreu Ibéria) e do Rei Mani-Pura, Curavia ou Curata, Senhor dos Nagas ou "Seres Serpentári- os", Ofiússas, do Patala (aqui, o "Ocidente"), segundo velhos textos do Oriente, Sacerdotes Inicia- dos de uma Ordem de santos e Sábios ou "Homens-Serpentes", remontando daí a Tradição de que Lisboa é a cidade da "Grande Serpente" (Kundalini), e as sete colinas os "seus sete anéis". Também a tradição, lavrada em textos velados, de que a Princesa Lissipa deixou cair ao Rio o seu anel com um pentagrama esculpido com pedras preciosas e que depois foi encontrado no buxo de um peixe acabado de pescar, é indicativo de que Portugal já na Atlântida estava sob a égide do si- gno de Peixes e que Lisboa já então se revelava pelo Feminino Iluminado, a Ofiússa ou Sibila, dando o seu contributo a uma longínqua mas pressentida "5.ª Coisa" a fazer. Enfim, para nós realidades inserta no que chamamos a História da Obra Divina, mas para outros factos, se é que alguma vez os foram, profundamente contestáveis, sem dúvida, e que as fábulas e contos locais se encarregaram de encobrir sob o véu da fantasia e do fado que, mesmo assim, chora a saudade.

O TERREIRO DO PAÇO

P. - Que simbologia pode conter a Praça do Comércio ou Terreiro do Paço?

R. - O Terreiro do Paço, na disposição linear do seu talhe, no alinhamento das suas artérias, no ri- tmo geométrico da sua arcaria é a lâmpada de Aladino (Allah-Jin, em persa) que franqueia a porta que conduz à gruta subterrânea, onde jazem os maravilhosos tesouros escondidos, até aqui, aos olhares profanos. A Praça dos Arcos é o átrio que nos conduz ao Santuário das sete colinas, o Templo da Sabedoria.

P. - E o famoso Arco da Rua Augusta?

R. - O Arco da Rua Augusta tem profundo significado esotérico. Todas as cidades alicerçadas sobre sete colinas possuem o seu Arco do Triunfo ou da Salvação. O de Lisboa é a síntese sagrada e também estética dos demais espalhados pela Europa e Médio-Oriente. Designa o Umbral dos Mistérios, a passagem das trevas para a Luz, da morte para a Imortalidade que a Sabedoria das Idades concede.
Neste Arco encontram-se as figuras de quatro personagens importantes de nossa História: Viriato, chefe dos Lugsignan, os Lusitanos, que deram o sentido da Nacionalidade nascente; Vasco da Gama, almirante da Ordem de Cristo e que ligou a Ásia à Europa por Via Atlante, quer é dizer, Marítima; Sebastião de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que coadjuvado por operativos maçónicos ingleses, franceses, húngaros e portugueses, reconstruiu a velha Lisboa depois do terramoto de 1755 e ordenou reformas sociais as quais abriram um novo ciclo na nossa História; e o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira (ligado à Casa de Bragança que, por Lei de Causalidade, veio depois a governar o Brasil, sendo o seu primeiro Governador Geral D. Tomé de Souza), o qual alguns teimam em associar à figura do Infante D. Henrique, também este vulto imponente na História Portuguesa que o torna deveras ímpar, indo a sua influência directa desde as conquistas militares à abertura de novas cadeiras universitárias, ao apoio às Ordens de Cavalaria e Religiosas, até chegou ao ciclo das Descobertas marítimas que já se habitou chamar de Período Henriquino, sob o signo do Prestes João, já indício da vindoura Era do Aquário de abertura e expansão universal.

Ladeando essas quatro personagens estão as estátuas alegóricas do Tejo e do Douro, pre- cisamente os divinos Génios de Lisboa e do Porto, as cidades-gémeas expressivas das colunas sa- lomónicas Bohaz e Jakin, precisamente expressadas nas cores negra e branca patentes na bandeira da sempre nobre e leal cidade de Lisboa.

P. - Quem foram os autores dos dois grupos escultóricos dos quais nos acaba de decifrar o significado?

R. - O grupo escultórico de que acabamos de falar é da autoria de Vítor Figueiredo de Bastos, en- quanto o grupo alegórico que encima o Arco foi obra do pedreiro-livre e escultor francês Camels. Ele representa aí Ibez ou Ibéria, aqui como Grande Mãe Universal, laureando, coroando Apolo e Minerva, a Iluminação e o Entendimento. Ela é a Laureada, a "Coroa dos Magos" da 22.ª lâmina do Tarot.

OS ARCOS DO TERREIRO REPRESENTAM OS ARCANOS DO TAROT

P. - Se existem analogias com o Tarot, no Arco, haverá mais representações simbólicas do Tarot ou Terreiro do Paço?

R. - O Livro de Thot, mais conhecido pelo nome de Tarot é, como se sabe, constituído por 78 cartas ou lâminas, originalmente de ouro fino ou crisopeico e prata argiopeica, pertencendo as pri- meiras 22 lâminas aos Arcanos Maiores, ou Esotéricos, e as restantes 56 aos chamados Arcanos Menores, ou Exotéricos. Existe uma intencionalidade na própria arcaria do Terreiro do Paço ultra- passando, sem dúvida, a sua função estrutural da sua arquitectura. Os edifícios laterais contêm 28 arcos cada um, cuja soma total é de 56 arcos, ou Arcanos Menores.

Na fachada principal, entre as Ruas do Ouro e da Prata, contamos, por outro lado, 22 arcos, 11 em cada direcção, a partir da Rua Augusta. Ora 22 arcos correspondem, exactamente, ao número dos 22 Arcanos Maiores ou Iniciáticos.

Se aplicarmos a cada arco o arcano que lhe corresponde, possuímos a chave interpretativa de um ciclo completo de manifestação: relativamente aos 56 arcos, a manifestação profana, e quanto aos 22 arcos frontais, entre as Rua do Ouro e da Prata, a realização oculta.

Sobre isso, cito agora um trecho, datado de 30.7.1951, de uma obra impublicável do Prof. Henrique José de Souza, O Livro do Loto, e que tem a ver com tudo quanto vimos dizendo: "Repare-se como o Arco da Rua Augusta se parece com o do Palácio da Aclamação, na capital baia- na. VIRTUTIBUS MAIORUM (melhor dito, MAJORUM), é o lema da Rua Augusta. De cada lado do re- ferido Arco da Rua Augusta, figuram 11 portais. Ele é, portanto, o 23.º, como primeiro Arcano Menor. A estátua do frontispício, na sua parte mais alta, coroa um Homem e uma Mulher. Em baixo também se fala num DOCUMENTO P.P.D., que antes deveria ser L.P.D. Deve ser um lema latino referente a PORTUGAL".

P. - Podemos considerar Lisboa como uma das cidades europeias mais ricas, sob o ponto de vista monumental?

R. - Lisboa é, de facto, a capital da Europa no contexto monumental, não esquecendo a arte vitral, a azulejaria e a pintura. Os painéis de Nuno Gonçalves quiçá sejam o maior exemplo, e certamente não estão devidamente lidos e interpretados, pois este Políptico encerra a génese e linhas gerais do desenvolvimento Lusitano e Ibérico no geral, muito além da interpretação vulgar que tão mal se é uso e costume dar-se-lhe.

Por isso e por toda a beleza e grandiosidade estética e esotérica de Lisboa, apelo às respe- ctivas autoridades para que concedam uma maior protecção ao nosso maravilhoso património na- cional, particularmente ao património lisboeta, afinal de conta, a nossa Memória, a Memória do Povo Português. É sumamente doloroso, e só arrancando lamentos d´alma, ver-se hoje tão maltra- tado o património monumental da capital, vítima da poluição motora e da inconsciência de partidá- rios políticos ou desportivos, servindo-se dos monumentos como quadros para borrar os seus "slo- gans" e símbolos, sujando e destruindo a nossa estatuária ímpar. A perder-se será algo irrecuperá- vel pois com ela se perderá muito da nossa Alma Lusitana, ademais, os Mestres Arquitectos e Canteiros há muito que se foram...

CAVALEIRO DA ESTÁTUA

P. - No centro do Terreiro do Paço está a estátua que se diz ser de D. José, da autoria de Machado de Castro, templário e escultor da escola de Mafra. Será que também nela se manifesta um simbolismo oculto?

R. - Há que saber ver e ler, para além do simbolismo aparente, o verdadeiro significado da esta- tuária deste aro esotérico da Baixa Pombalina, tanto mais que todos os seus escultores houveram talhado o seu carácter, saber e arte no escrínio iniciático de Confrarias esotéricas, fossem (Neo) Templárias, fossem Maçónicas.

O cavaleiro da estátua, empunhando o ceptro imperial mandatário e cobrindo-se com um manto, quiçá vermelho, semelhante aos que usavam os cavaleiros da ordem de Cristo e cuja montada branca esmaga as serpentes, sugere ser a própria imagem de S. Jorge, para a Tradição, o Vigilante Silencioso da Pátria Lusitana, expressando na Terra ao próprio e psicopompo S. Miguel, afinal, este o Metraton para aquele o Sandalphon.

O anjo da trombeta, junto do elefante, e o anjo da palma, junto dum cavalo, ambos esma- gando o homem velho e a profanidade, designam as Tradições Iniciáticas Oriental-Ocidental unidas, encontradas em Portugal, onde acaba a terra e o vasto mar começa.

Atrás do cavaleiro, nas costas da estátua, encontra-se esculpida a alegoria da aparição do Menino Coroado, sob o apadrinhamento de sua Santa Mãe, sugerindo o futuro Reinado do Espírito Santo, tese já perfilhada pelo abade cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora, no século XIII. A arca aberta de um tesouro está aos pés do Menino, e um arquitecto mostra-lhe o plano da Nova Lisboa. Ilustração semelhante a essa encontra-se numa tapeçaria no Convento de Mafra. Por falar em Mafra, símile do Templo de Salomão, as suas dimensões são exactamente as mesmas do Terreiro do Paço e onde se encontra, naquele, o seu altar-mor, está neste precisamente a estátua equestre de D. José I ou de S. Jorge, aqui nesta Praça dos Arcos ou Arcanos. Terrível coincidência, mais por causalidade do que por casualidade...

Mais uma vez, a sibilina profecia de Sintra faz eco: "Patente me farei aos do Ocidente / Quando a Porta se abrir lá do Oriente / Será cousa pasmosa quando o Indo / Quando o Ganges trocar, segundo vejo / Seus (divinos) efeitos com o Tejo".

ARTÉRIAS DA BAIXA FORMAM O CADUCEU DE MERCÚRIO

P. - Para terminar, gostaríamos de voltar às três ruas da "Baixa". Qual o seu significado?

R. - Do Terreiro do Paço partem as principais artérias: Rua Augusta, Rua do Ouro e Rua da Prata. Quando dizemos artérias aplicamos o termo próprio, pois é de artérias que se trata. As Ruas do Ouro e da Prata, com a Rua Augusta, representam o caduceu de Hermes, ou de Thot, e como é sa- bido, o caduceu compõe-se duma coluna central em torno da qual sobem duas serpentes, uma dourada e outra prateada, respectivamente uma solar e outra lunar.

Estas serpentes representam e são as artérias pelas quais flui a energia serpentina vital, desdobrada nos seus dois aspectos complementares: o lunar que é frio e passivo, enquanto o solar é quente e activo.

Na simbólica tradicional o ouro expressa o Sol e a prata a Lua. Torna-se claro que a Rua do Ouro corresponde ao aspecto solar do caduceu, a Rua da Prata ao lunar e que, finalmente, a Rua Augusta simboliza o bastão central, canal de fusão e síntese destas duas forças polares.

Através do caduceu pombalino temos acesso às sete colinas ou selos da Boa Liz: S. Vicente, em Alfama; St.º André, na Graça; S. Jorge, na Mouraria; S. Roque, no Bairro Alto; St.ª Catarina, a partir do Camões; Santana, sobre o Largo da Anunciada, e Chagas, no Carmo. Interpretar estes sete padroeiros é interpretar o enigma críptico de Lisboa, que aqui não nos cabe fazer.

O Esoterismo nas Ruas de Lisboa - I

O SIMBOLISMO DA LISBOA RECONSTRUIDA



Após o devastador terremoto de 1755 em Lisboa, o rei D. José I e o seu Ministro da Guerra e futuro Primeiro–Ministro de Portugal, Marquês de Pombal tomaram medidas imediatas para que a cidade renascesse novamente. Contrataram assim um considerável número de arquitectos e engenheiros, que em menos de um ano fizeram o “milagre” de transformar Lisboa numa cidade sem ruínas decorrendo ainda os trabalhos de reedficação já bastante adiantados. O rei desejava uma cidade nova e ordenada e assim, grandes praças e avenidas largas e rectilíneas marcaram a planta da nova cidade.

O novo centro, hoje conhecido por Baixa Pombalina é uma das zonas nobres da cidade. São os primeiros edifícios mundiais a serem construídos com protecções anti-sísmica, que foram testadas em modelos de madeira à medida que as tropas marchavam ao seu redor testando assim a sua resistência (gaiola pombalina).

Contúdo, toda esta grandiosa obra “escondia” algo mais. Hoje, temos uma Lisboa marcada por um sistema simbólico ligados ao Esoterismo, à maçonaria, à alquimia, à mitologia, etc.Temos uma Lisboa povoada por estátuas e obeliscos, por altos e baixos relevos, por azulejos que nos contam histórias maravilhosas, que nos falam de mistérios inimagináveis e que de uma forma ou de outra nos sugerem o mito, o sonho da Lisboa do Quinto Império.


O Taro na Arquitectura Lisboeta

"...quem souber ler nos arcanos do Tarot pode decifrar no Terreiro Pombalino a história secreta de Portugal."


E é neste contexto que vimos encontrar o Tarot representado na arquitectura pombalina da Praça do Comércio e mais tarde (1870) na Praça D. Pedro IV (Rossio). No livro “Jardins Secrtetos de Lisboa” de Manuela Gonzaga, encontra-se um pequeno trecho sobre o assunto:

(…)«A estátua de D.Pedro do Rossio equivale ao mundus, o ponto axial, centro para onde convergem todas as direcções da cidade, e porque não? do País, já que Lisboa é capital. Aqui o temos, sobre este falo erecto, apadrinhado pelos guardiães das quatro direcções universais, os quatro naipes do tarô, paus, espadas, copas e taças. No cristianismo, são conhecidos como Rafael, Michael, Ariel e Gabriel.»
Palavras de Victor Adrião, historiador e outsider da cultura, com dezenas de livros em edição de autor, apaixonado por estas matérias de segredo.

E rodeando a estátua em passadas largas, vai indicando, naipe a naipe, guardião por guardião: taças, ou copas, a apontar a Rua de Santo Antão, o Anacoreta do Deserto "a qual inclina 17 graus para direita». Ouros, indicando a gare do Rossio, "o caminho alquímico, o ouro vivo, a pedra filosofal, onde está a Estátua do Encoberto, aquele que cavalga o cavalo branco, o Avatar, o Cristo Aquário, o Senhor do Quinto Império". Paus, ou báculo, a vara divinatória que indica o "Carmo, o lugar onde surgiu o culto matriarcal à mãe divina, o convento onde repousa Frei Nuno de Santa Maria, D.Nuno Álvares Pereira. Um convento que a tradição associa a mutações alquímicas, e onde se pode ver, numa lápide, a imagem alegórica do alquimista trabalhando debaixo da terra". Finalmente, espadas:

«A espada da lei e da virtude, a que premeia e salva, a que protege ou castiga, que aponta em direcção à Sé Patriarcal de Lisboa, a quinta catedral gralística do ocidente, por onde cerca do ano 985 a Taça do Santo Graal passou e ficou até finais do século XII.» – diz ele.

O autor ainda insiste:

«Para onde olha D. Pedro, o Imperador do Brasil? Em direcção ao Cais das Colunas, onde diz a tradição, cantada e prosada por Pessoa, para não falar de Sampaio Bruno, António Sérgio, e outros, haverá de desembarcar, alegoricamente falando, o Encoberto. O salvador das nações. Ou como diz a profecia de Sintra: "quem nasce em Portugal é por missão ou castigo.". Seja por missão.»

Portugal, País sob o número 17, o arcano da Estrela, astrologicamente do signo Peixes, regido por Vénus e Júpiter, que por sua vez tem na águia o seu símbolo supremo. É essa que encontramos no cruzamento da Rua de São Nicolau com a Rua Augusta.(…)

(…)Depois, Ouro, Prata, Augusta, nomes de ruas que evocam a terminologia alquímica, cujo desfecho se encontra na Praça dos Arcos. 22 Arcanos maiores, e os restantes são os 56 arcanos menores. É o Livro de Tot, o Tarô egípcio, a céu aberto, diante do Cais das Colunas. Como se chamava a passagem pelos claustros? Não eram «os passos perdidos"? Perdidos para o profano, achados para o iniciado que chega ao fim adquirindo o conhecimento?(…)


(…) É passear no Terreiro do Paço, concebido de acordo com a numerologia das lâminas do Tarô. (…)

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Outro Grande historiador, o Dr. Olímpio Gonçalves da Comunidade Portuguesa de Eubiose, já se referia a esta questão em 1982 com a publicação, na revista oficial da CPE “Graal”, do artigo “Lisboa à Luz dos seus Arcanos” do qual deixamos aqui um excerto:


"Lisboa, como todas as cidades de sete colinas, é considerada pela Tradição uma urbe sagrada.
Na fisionomia do seu quotidiano, no silêncio ou no bulício do seu dia-a-dia nas ruas e nas praças, inscreve-se na perenidade do seu rosto a secreta história dos lusos, o seu presente, o devir da sua grande missão diante do Mundo.

A sua praça maior, vestíbulo de entrada para a metrópole mais occidental da Europa e de saída milenar para os mares oceanos, propõe-nos, desde logo, a decifração dos enigmas que determinam as gestas deste povo de marinheiros, Pelágios ou homens do mar, e das suas reminiscências atlantes.
O Terreiro do Paço, na disposição linear do seu talhe, no alinhamento das suas artérias, no ritmo geométrico da sua arcaria é a lâmpada de Aladin que franqueia a porta que nos conduz à gruta subterrânea, onde jazem os maravilhosos tesouros escondidos, até aqui aos olhares profanos.

A Praça dos Arcos é o átrio que conduz ao santuário das sete Colinas, o Templo da Sabedoria.
É como um enorme livro de pedra onde a mensagem, embora críptica, pode ser lida e entendida, desde que interrogada na sagrada linguagem dos números e dos símbolos herméticos dos Arcanos de Thot.
O Livro de Thot, mais conhecido como Tarot é, como se sabe, constituído por 78 lâminas, originalmente de ouro fino, pertencendo 22 lâminas aos Arcanos Maiores, os esotéricos, e as restantes 56 aos chamados Arcanos Menores ou exotéricos.

Os 22 arcanos maiores, como o próprio nome indica, dão-nos a representação arcânica, arquetípica, de tudo quanto se pode conceber, de tudo quanto existe. Aplicando estes ideogramas simbólicos do Tarot e estabelecendo as correlações entre os 22 arcanos da série, segundo os cânones, eles revelam-nos as incógnitas dos mais complexos problemas.

Se observarmos, sob o ponto de vista estético, o Terreiro do Paço, logo verificamos que a expressão preponderante é a sua vasta, a sua profusa arcaria. Existe uma intencionalidade na disposição muito particular desses elementos que ultrapassa, sem dúvida, a simples função estrutural da sua arquitectura.
Os edifícios laterais contêm 28 arcos, cada um, cuja soma é de 56 arcos, o que corresponde ao número de lâminas dos arcanos menores.

Na fachada principal, entre as ruas do Ouro e da Prata, contamos, por outro lado, 22 arcos, 11 em cada direcção, a partir da Rua Augusta.
Ora, 22 arcos correspondem exactamente ao número de lâminas dos Arcanos Maiores, os arcanos iniciáticos.

Se aplicarmos a cada arco o arcano que lhe corresponde, possuímos a chave interpretativa de um ciclo completo de manifestação: relativamente aos 56 arcanos, a manifestação profana, quanto aos 22 arcos frontais, entre as ruas do Ouro e da Prata, a realização oculta.

Na verdade, quem souber ler nos arcanos do Tarot pode decifrar no Terreiro Pombalino a história secreta de Portugal."

Acontece que, na presciência das coisas, a urbanização pombalina inscreve a sua mensagem silenciosa numa síntese final dos 22 arcanos, que nos é dada pelas lâminas 18, 19 e 21. Porquê?

Porque as principais artérias que partem do Terreiro do Paço são: A Rua Augusta, a Rua do Ouro e a Rua da Prata.

Quando dizemos artérias, aplicamos o termo próprio, pois é disso que se trata. As ruas do Ouro e da Prata e a Rua Augusta representam o caduceu de Hermes, ou de Thot se quiserem, e como é sabido, o caduceu compõe-se duma coluna central, em torno da qual sobem duas serpentes, uma dourada e outra prateada. Respectivamente, uma solar e outra lunar.

Estas serpentes representam e são as artérias pela qual flui a energia serpentínea vital, desdobrada nos seus dois aspectos complementares, lunar, frio e passivo e solar, activo e quente.

Se nos lembrarmos que, na simbólica tradicional, o ouro expressa o Sol e a prata a Lua, torna-se claro que a Rua do Ouro corresponde ao aspecto solar do caduceu, a Rua da Prata ao lunar e que finalmente, a Rua Augusta simboliza o bastão central, O CADUCEU DE MERCURIO, canal de fusão e síntese destas duas forças polares, Símbolo que guarda todos os Mistérios Alquimicos, e Iniciáticos do Esoterismo.